Jornal o estado do maranhão, 03 de outubro de 2008
Joaquim Haickel e suas pepitas de arte
Antes que os chamados grandes centros culturais do país atentassem para a idéia, o Maranhão já fazia seu Festival de Super-8 em cima de qual suporte produzimos arte de qualidade invejável: pena que nossos realizadores ainda não dispusessem de tecnologia e recursos materiais adequados para preservar suas pequenas jóias de arte que se diluíram com o passar do tempo, vítimas do calor e da umidade naturais, conseqüentemente comidas pelas bactérias, filhas legítimas desse tipo de clima. Aos que se permitirem, contudo, ao luxo de consultar as publicações dos anos 70 do século passado vão encontrar nomes importantes de nossa história cultural fazendo dessa bitola seu suporte de construção artística, entre eles Euclides Moreira Neto, Murilo Santos, Ivan Sarney, João Ubaldo, Cintra, Medeiros (fico na dúvida se Nerine Lobão fez parte do grupo super-8 ou se só entrou para a história do gênero na bitola 16 mm.) entre os quais um meninão com ar de rufião cultural, mexendo não só com cinema, poesia, conto, mas discutindo com argumentos reveladores estéticas da arte nos grupos que então se formavam para desacatar a Academia de Letras; que não seria um fenômeno passageiro como alguns de seus parceiros de geração e malinagens. Quem sois? Hoje o empresário Joaquim Haickel, que acrescentou a seu currículo a atividade político-partidária, gérmen herdado do pai, avô e bisavô, família de origem libanesa oriunda de meridianos distantes para conferir hálito peculiar à zona do Mearim.
Joaquim está construindo uma história pessoal de nível invejável onde o capítulo de personalidade de destaque no curta maranhense/brasileiro é de invejável qualidade. Premiado infinitas vezes não só nos festivais aqui dentro realizados como no entorno do Maranhão, acaba de realizar uma proeza só comparável aos talentosos e predestinados: seus dois últimos curtas, “Pelo ouvido” e “Padre Nosso”, estão pintando e bordando pelos festivais do continente e vizinhança.
Não bem assimilado pelos medalhões da crítica, por que equivocadamente visto como manifestação amadorística ou experimental, o curta (falo em termos de Brasil desconhecendo como desconheço o que é feito pelo mundo afora) tem preciosidades que merecem ser preservadas, os que desdenham do gênero precisam freqüentar o Guarnicê de Cine e Vídeo - agora desdobrado no Curta Lençóis -, o Audiovisual do MERCOSUL, o Curta Cabo Frio, entre outros.
“Padre Nosso” é um flagrante bem humorado de um dos maiores conflitos da Igreja Católica no mundo cristão, essa exigência medievalesca conservada pelo Vaticano em acorrentar seus ministros a uma promessa anti-racional de celibato “longe da tentação da carne”. Com locação no município de Paço do Lumiar e envolvendo a comunidade dessa localidade rural da ilha de São Luís na função de extras, o diretor/roteirista Joaquim Haickel consegue resultados surpreendentes deixando bem evidente esse caráter malicioso do maranhense já exposto nas obras ficcionais de escritores de nível como João Mohana, Ribamar Galisa e Josué Montello ou nos ácidos sermãos do padre Vieira quando de sua atribulada passagem pela capital maranhense. Com 4 minutos e alguns segundos de duração Joaquim nos fala de um dos grandes conflitos vividos pelas alcovas da igreja católica que é o pecado da luxúria. A atuação de Chico Pedrosa na figura do pároco vítima de incontinência sexual é sóbria e condizente, destaque para Urias - e a comunidade de Paço do Lumiar que participa como extra.
Já “Pelo ouvido”, a partir de um conto do próprio Haickel, é esteticamente impactante. No lirismo de algumas cenas, em outras poeticamente sensuais, no uso das cores e na construção das cenas temos o conflito comentado com categoria excepcional pela trilha sonora de Yvo Ursini. O leitor já assistiu algum incêndio sem se envolver com a parte emocional da tragédia? Se não, experimente o próximo e veja como é belo: exclua o lado emocional da tragédia, o próprio sentimento de tragédia, sem pensar nos bens materiais que estão sendo consumidos, nas vidas humanas que eventualmente estejam sendo tragadas de forma brutal, no patrimônio físico desbaratado. Eu já vi; vi vários - incluindo os prédios americanos explodidos pelo Bin Laden. É um primor de arte quando a gente consegue ficar distante; mas coloque-se lá dentro e me diga o resultado. “Pelo ouvido” não é possível ficarmos à margem. Somos capturados pela trama e o resultado é devastador. São 17 minutos de densidade emocional, de envolvimento, mesmo que não se tenha nada com a ansiedade daquela mulher nem com o profundo desespero daquele homem, interiormente revoltado, que explode sua revolta em gestos de amor.
Joaquim Haickel fica me devendo esse momento de angústia que me fez sofrer - e que permanece na gente, querendo encontrar uma solução para o drama daquele casal.
Vi e revi várias vezes os dois curtas de Joaquim Haickel. Ambos, procurando pelas falhas, em vão: “Pelo ouvido” para tentar não me emocionar, em vão. Que bom se todos pudessem ver estas duas pequenas tetéias da arte do cinema brasileiro. Como! Pergunto então quando as autoridades da área cultural, que mexem com a banda do audiovisual neste país vão tomar providências legais para levar essas preciosas jóias à visibilidade do povo. Pois não bastam as jornadas, os festivais, os encontros específicos.
Hein! Deputado Joaquim Haickel? voltar |