FÉLIX ALBERTO LIMA
Especial para o Alternativo
Um tributo ao mais feminino dos sentidos humanos. Assim é Pelo Ouvido, o curta-metragem do maranhense Joaquim Haickel que participa hoje da 13ª sessão competitiva do Festival Internacional de Cinema de Boston, nos Estados Unidos. O filme, única produção brasileira selecionada para o festival, é baseado em conto homônimo de Haickel publicado no livro A Ponte, em 1991, pelo selo Edições Guarnicê.
Pelo Ouvido é visceral e ao mesmo tempo suave e terno. Tem pegada técnica com uma linguagem universal, envolvente. São 17 minutos de uma história que surpreende, de roteiro inteligente, trilha sonora original impecável e recursos cenográficos sob medida. Pelo Ouvido, o conto, foi escrito em 1984, quando Haickel integrava a equipe de redatores e agitadores culturais da revista Guarnicê e ainda ensaiava os primeiros passos na política.
A história se passa quase que totalmente dentro de um apartamento de uma grande cidade, que tanto pode ser São Paulo, Londres ou São Luís. Pelo Ouvido cabe em qualquer parte porque prende a atenção e transcende tempo e espaço. O filme conta a história de Katie (Amanda Acosta) e Charlie (Eucir de Souza). Charlie é vítima de um grave acidente que o deixa com seqüelas irreparáveis. Cego, surdo e mudo, Charlie mergulha no silêncio de um mundo que nem sempre satisfaz as fantasias da jovem Katie. Há poucos minutos para compreender – ou pelo menos para tentar decifrar – os desdobramentos dessa relação. Katie e Charlie se entendem.
O curta-metragem, a rigor, sugere uma discussão, traz uma mensagem subliminar, defende um ponto de vista, documenta uma história, revela passagens de ficção, fragmentos da história. Esqueça tudo isso. Pelo Ouvido é um curta sem maiores pretensões, uma provocação desinibida sobre um tema que, entre quatro paredes, salta aos olhos da indiferença. Joaquim Haickel não quis escrever um réquiem aos amores servis. Katie e Charlie se dão de presente, na cama, na banheira, no tato, na poesia, no telefone. Para gemer cada vez mais alto, Katie precisa ouvir o que Charles é incapaz de pronunciar.
Pelo Ouvido foi rodado em São Paulo entre setembro de 2007 e maio de 2008. Com roteiro de Joaquim Haickel e Arturo Sabóia, o filme é dirigido pelo autor do conto e tem produção executiva de Ana Mendonça e Coi Belluzzo. Cerca de 40 pessoas, entre técnicos, atores e assistentes, participaram da produção que arrebatou lugar de destaque no Festival Internacional de Boston. O curta consumiu na produção aproximadamente R$ 150 mil, com equipamentos, pagamento de cachês e custos com locação.
Eucir de Souza, o Charlie, é ator da nova geração do teatro paulista. Em 2007, encenou o monólogo O Incrível Menino Na Fotografia, com texto de Fernando Bonassi. No cinema, participou de curtas como Riso-Hiena, O Tempo dos Objetos e Fim de Caso. Mais recentemente fez o curta-metragem Palíndrome. Em Pelo Ouvido, Eucir interpreta com a alma um artista (poeta, músico e escultor) preso no silêncio cego de seu apartamento.
A bela Amanda Acosta, que interpreta Katie, tem passagens pela TV, publicidade, cinema e teatro. Nos palcos,encenou Rapsódia dos Divinos, As mulheres da Minha Vida, Os Sete Gatinhos, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Marcante foi sua interpretação de Elisa Doolittle na inteligente comédia My Fair Lady. Na música, Amanda Acosta foi uma das vozes do famoso Trem da Alegria, grupo que embalou sonhos de muitas crianças Brasil afora. Voz afinada e de repertório luxuoso, Amanda dá vida à música O Segredo, feita especialmente para o filme Pelo Ouvido.
Autodidata e apaixonado pela Sétima Arte
As primeiras experiências de Joaquim Haickel com cinema datam das cruzadas culturais dos anos 80. Perambulou a esmo pelas salas dos cines Rex, Monte Castelo, Rialto, Éden, Roxy e Passeio. Em 1984, com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão de amigos, Haickel une-se a João Ubaldo e Newton Lilio para rodar The Best Friend (O Amigão) e o inscreve na 8ª Jornada Nacional de Cinema do Maranhão, o persistente Guarnicê de Cinema dos tempos atuais. O filme conquista os prêmios de melhor filme maranhense, do júri técnico, e melhor filme da jornada, do júri popular.
Adquiriu gosto pela arte, mas não quis mais brincar de cinema, pelo menos até o ano passado. Virou cinéfilo e passou a conhecer a linguagem do cinema como poucos no Maranhão. É um devorador de fichas técnicas, um incorrigível palpiteiro nas sessões do Oscar e freqüentador assíduo das salas de exibição.
Fazer cinema novamente, segundo Haickel, é reinventar o desafio do menino que cresceu impressionado pela luz e pelo movimento da tela grande. “Não estudei a linguagem do cinema, não freqüentei as academias, mas tenho o conhecimento do autodidata dedicado, apaixonado”, argumenta. Orgulha-se de ser um amador em matéria de cinema. “Amador é aquele que ama o que faz, e é isso o que acontece comigo”.
Sobre incursões futuras na produção cinematográfica, Joaquim Haickel desconversa. “Eu não sei bem o que eu quero, mas o que eu não quero eu tenho certeza”, relata em depoimento no making off do filme.
O conto do vigário e suas conseqüências
Em outubro de 1991, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu veio a São Luís ministrar uma oficina de conto para jovens poetas, escritores, jornalistas e universitários maranhenses. Organizado por Teresa Nascimento e Telma Rego, o evento contou com a participação de Antonio Carlos Alvim, Raimundo Garrone, Wilson Marques, Paulo
Melo Sousa, Luís Inácio, Moisés Matias e Marilda Mascarenhas, entre outros.
Uma semana de exercícios literários e leitura de textos de Machado de Assis, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Dalton Trevisan etc. Cada dia um conto indicado por alguém da oficina, com uma posterior rodada de comentários.
No penúltimo dia do curso, Joaquim Haickel sugeriu a leitura em grupo do conto Pelo Ouvido, de David Linch, o diretor e roteirista norte-americano. Lido o conto na oficina, a maioria do grupo – inclusive o próprio Caio Fernando Abreu – reconheceu, escancaradamente, traços cinematográficos que ligavam o texto a experiências anteriores do soturno diretor de Veludo Azul, Coração Selvagem e Twin Peaks. O conto, ambientado em Georgetown, bairro de Washington, tem como personagens Churck e Kate.
No dia seguinte o constrangimento foi geral. O conto Pelo Ouvido, soube-se, era de Joaquim Haickel e não de David Linch. “Escaldado por algumas críticas dirigidas à sua obra por causa de sua profissão, a de político, Joaquim resolve, em tom de brincadeira, pôr seu talento à prova”, explicaria dias depois José Louzeiro, ou melhor, Joaquim Haickel, em artigo publicado em O Estado. Ele usou o nome de Louzeiro para relatar o episódio da oficina e responder à reportagem intitulada Literatura e Arte de Enganar, publicada por Raimundo Garrone no jornal “O Imparcial”, que pôs em dúvida a autoria do conto. “Com certeza, nenhum escritor ou jornalista vai contestar a qualidade do texto deste artigo de José Louzeiro, mesmo quando souber que ele na verdade foi escrito por Joaquim Haickel”, advertia Joaquim ao final do texto de Louzeiro.
A experiência da oficina Anatomia do Conto deixou para Joaquim Haickel uma lição: as pessoas não estão motivadas para boas obras, mas para boas assinaturas. Longe da polêmica primaveril do início dos anos 90, em Boston, Haickel certamente estará mais perto de David Linch.
Pelo ouvido, o conto
Cego era Churck. Cego e surdo.
Em verdade Churck era cego, surdo e mudo.
Kate não era sadia. Talvez não muito sã, mas sadia.
*
Casaram-se em Richmond e foram morar em Washington, num bairro antigo - Georgetown.
Kate trabalhava numa fábrica de sutiãs - telefonista.
Churck recebia pensão do exército. Na Coréia, uma granada estourou-lhe os tímpanos, arrancou-lhe as cordas vocais e vazou-lhe os olhos. Mas foi só.
*
Voltou pra casa e casou com a namorada de infância Katarrine Hampumt.
Kate o amava muito. “Kate o ama muito” - comentava-se.
*
Voltar pra casa, encontrar Churck e amar era o que se passava pela cabeça dela desde a saída.
Chegava, preparava banho pra dois. Espuma e amor na banheira.
Churck adorava. Kate nem tanto. Preferia na cama.
*
Depois do chá com torradas, Kate lia - Dashiell Hammett - em voz alta.
Churck nada ouvia. Pintava: mulheres - azuis, verdes, lilases, sempre mulheres nuas - nada via.
*
Onze horas, a de deitar. Kate sorria - hora de sentir prazer. Primeiro adaptava o headfone com o qual trabalhava a seu aparelho, discava: Chevy Chase, 3951.
*
“Alô!” - Kate.
“Estava ansioso...” - voz masculina do outro lado da linha.
*
Kate e Churck se amavam, Churck nada falava.
Kate ouvia. voltar |